Guerra na Tchétchénia
Pica Miolos
,
27.03.2007, (Id: 10332)
Cristina Dunaeva e Fernando Bomfim denunciam genocídio dos Tchetchenos por parte da Federação Russa. Dificilmente são ouvidos.
Cristina Dunaeva e Fernando Bomfim denunciam genocídio dos Tchetchenos por parte da Federação Russa. Dificilmente são ouvidos. Estiveram na CasaViva. Trouxeram fotografias da destruída Tchetchénia, DVDs e o livro que publicaram sobre essa pequena república situada na região a norte das montanhas do Cáucaso que reclama independência. Um território com importância geo-estratégica e que em tempos foi rico em petróleo, produção hoje praticamente destruída. Vive há oito anos uma guerra que afecta os cerca de 60 povos do Cáucaso.
Há dois séculos que os Tchetchenos são considerados terroristas, ora pelos czares do Império Russo, ora pelos dirigentes do Partido Comunista da URSS, ora pelos chefes da Federação Russa. Mas…
… quem é o terrorista?
A Tchetchénia é um país distante, algures numa região chamada Cáucaso Setentrional, a milhares de quilómetros a este de Portugal. Pouco mais de 19 mil quilómetros quadrados integrados na Federação Russa à revelia dos autóctones. Eram cerca de um milhão, nas estatísticas mais credíveis dos últimos oito anos. Serão menos, agora, milhares deles refugiados. A última guerra no país começou em 1999. Desde que Vladimir Putin comanda a Rússia. Aliás, Putin usou a invasão na Tchetchénia para reforçar uma popularidade que não tinha, exaltando sentimentos de nacionalismo. Desde então que o exército russo tomou conta do território. O país está destruído, sem infraestruturas. A população está a ser dizimada, pelas armas, pela miséria e pelo medo. Ao que está a acontecer chama-se genocídio. Faz parte do quotidiano dos Tchetchenos, da mesma forma que o medo silenciou os russos e a indiferença domina no resto do mundo.
Os povos das montanhas do Cáucaso Setentrional – tchetchenos, inguches, ossetas, kabardinos, balkaros, karatchai, tcherkesse e outros – sempre representaram entraves para as tentativas imperialistas euro-asiáticas: resistiram aos impérios tártaro-mongol, turco-otomano, russo e soviético. A geografia auxilia as estratégias de resistência, pois a região montanhosa dificulta o acesso das tropas dos invasores, enquanto as formas seculares de auto-subsistência das comunidades tradicionais colaboram para a sobrevivência. Pastores nómadas e agricultores, os povos organizam-se através de conselhos das comunidades e foram vistos como bárbaros e “atrasados” não só pelo Império Russo, mas também pelos dirigentes da URSS e da actual Federação Russa.
A guerra que se arrasta na Tchetchénia é considerada um dos dez maiores conflitos do mundo menos falado. É uma questão de Vida e de Direitos Humanos. Para quem tem dúvidas sobre a tortuosa vida dos Tchetchenos, dentro ou fora do território, e sobre a ditadura na Rússia, aconselha-se a leitura de “Terrorismo de Estado na Rússia: a guerra na Tchetchénia nos descaminhos da indústria da violência” (ed. Achiamé, Rio de Janeiro), da Ação Literária pela Autodeterminação dos Povos, criada por Cristina e Fernando, que, entre finais de 2004 e início de 2006, reuniram, sintetizaram e traduziram documentos, de variadas fontes, até ao trabalho final das 116 páginas do livro, lançado há três meses. Ela traduziu textos do russo, ele traduziu textos do inglês. Antes, viveram dois meses na Rússia, nas cidades de Moscovo e São Petersburgo e na vila rural de Priamukhino. São ambos bolseiros da Universidade de Campinas, S. Paulo, ambos preparam doutoramento, ela em Sociologia, ele em Educação.
Determinante para a concretização da obra foi também a colaboração de Lida Iussupova, tchetchena representante da organização não governamental (ONG) Memorial em Grozni, capital da Tchetchénia. Lida é uma reconhecida activista na luta em defesa dos direitos humanos de seu povo, que Cristina e Fernando conheceram em 2005, em S. Paulo, quando se deslocou ao Brasil a convite da Federação Internacional de Direitos Humanos para participar no IV Fórum Social Mundial.
Em Fevereiro passado, os dois estiveram em Portugal, para apresentar a obra conjunta e denunciar a situação na Tchetchénia. Estiveram em Aljustrel, no Centro de Cultura Anarquista Gonçalves Correia, dia 23, data em que se assinala a deportação, imposta por Stalin em 1944, do povo da Tchetchénia, da vizinha Inguchétia e de outros. No dia seguinte estiveram no Porto, na CasaViva. Dia 29, em Lisboa, na Biblioteca dos Operários e Empregados da Sociedade em Geral.
Na CasaViva, tiveram muito pouco público. Apesar de uma divulgação para mais de cinco centenas de contactos electrónicos, só apareceram duas pessoas, além da dezena da casa. Jornalistas, nem vê-los. A pergunta que Cristina deixou no final da informal conversa de sábado à noite ficou sem resposta: “O que podemos fazer para denunciar esta guerra silenciada?...e chamar a atenção da população do resto do mundo”. Veja-se o exemplo do Brasil, denunciado por Fernando: na recente visita àquele país, Putin exigiu que os jornalistas brasileiros não fizessem perguntas sobre a Tchetchénia. Foi aceite!
O assassinato de Anna Politkóvskaia no Outono passado é prova do estado da Comunicação Social no interior da Rússia. “Anna foi uma das poucas jornalistas que abertamente denunciava os crimes cometidos na Tchetchénia publicando artigos, escrevendo livros, entrando com as ações de denúncia na justiça”, escrevem Cristina e Fernando. Dedicam-lhe dez páginas, com a tradução de um dos contos (com pequenas reduções) que faz parte do seu livro “Uma Guerra Alheia ou a Vida atrás da Chencela. Tchetchénia”, Moscovo, 2002 (edição realizada com o apoio de departamento de comissário superior da ONU para os Refugiados e das Fundações Ford e Mott). Dez páginas sentidas, testemunho das atrocidades cometidas contra o povo Tchetcheno pelo exército russo, na sequência da sua estadia, em Fevereiro de 2001, no campo de concentração em que se tornou a República Tchetchena e onde raros jornalistas entram. Razão pela qual ela própria foi presa.
Pouco mudou na Rússia
Estima-se em 500 mil o número de refugiados Tchetchenos. Oficialmente são considerados “deslocados”, pois o conflito não é classificado como uma guerra, mas como uma operação contra o terrorismo. A maioria vive em condições deploráveis em campos de refugiados na Inguchétia. Condições essas que vêm sendo deliberadamente precarizadas para provocar o regresso à Tchetchénia, contam Cristina e Fernando. Contudo, os que regressam rapidamente descobrem que “lá a situação ainda é pior, logo à chegada com bloqueios do exército russo na estrada”.
Os refugiados dificilmente conseguem sair da Rússia. Em Moscovo e S. Petersburgo são “os culpados de tudo”, ninguém quer ter um tchetcheno por vizinho. “Da Tchetchénia vêm os maiores problemas é a ideia que domina na Rússia”, segundo Cristina e Fernando. Sobretudo depois da ocupação do Teatro Dubrovskaia, de Moscovo, em Outubro de 2002, por independentistas tchetchenos. Em resposta, o Governo russo “protegeu” os cerca de 700 reféns com tropa de elite e um gás que foi mortal para 116 pessoas. Dois anos depois, a Tchetchénia volta a ser notícia internacional, quando rebeldes tchetchenos tomam a escola de Beslan, na Ossétia do Norte, com mais de mil reféns. O exército russo repete a dose, invade a escola, apesar do cerco dos pais dos alunos, e morrem mais de 350 pessoas, entre as quais várias crianças.
“No dia seguinte, ninguém fala do assunto. Algo está mal”, barafusta Fernando, assustado com tamanho silêncio. Haveria os que não comentavam a notícia por medo, outros por desconhecimento. A novela brasileira que passava à hora dos acontecimentos na televisão com mais audiência não foi interrompida. Na Rússia, não há televisões privadas, mas há seis canais, todos estatais, um deles sob a alçada do Exército. Segundo Cristina, a televisão na Rússia, agora, “está igual” ao tempo da URSS. Putin é figura constante no quadrado mágico, omnipresente e omnisciente.
“Passados 15 anos desde a desintegração da URSS, podemos perceber que, em termos de poder, pouca coisa mudou: as elites governantes continuam sendo as mesmas e os mecanismos de domínio estão sendo resgatados da época anterior (cujo fim fora tão festejado um dia) e aplicados com eficiência”, alertam Cristina e Fernando.
Em 2004, no dia 1 de Setembro, dia de tomada da escola de Beslan, Anna Politkóvskaia teve uma “curiosa” infecção intestinal depois de ter bebido um chá no avião que a levava de Moscovo à capital da Ossétia do Norte. Dois anos depois, quando foi assassinada, investigava as causas que levaram à morte dos reféns no teatro de Moscovo. Trabalhava para a revista “Novaia Gazeta” (Jornal Novo), única publicação russa a dar notícia dos acontecimentos na escola em Beslan.
Após esse fatídico reinício do ano lectivo, o governo de Putin promoveu uma grande manifestação contra o terrorismo. Uma manifestação de presença obrigatória para funcionários públicos e estudantes, para enganar o resto do mundo. À qual não faltaram os partidos de extrema-direita (tão organizados que até têm sítios na Internet com os nomes dos inimigos). Palavras de ordem: “Moscovo para os moscovitas. Fora os imigrantes”.
Em contrapartida, a Memorial (www.memo.ru), uma das poucas ONG activa na Rússia, promove denúncias da situação na Tchetchénia. Juntamente com anarquistas e anti-fascistas, organizados num Comité (www.voinenet.ru), realizam semanalmente manifestações contra a guerra e o militarismo. Raramente conseguem reunir mais de 20 pessoas. Em 2004, quando estiveram na Rússia, Cristina e Fernando participaram em manifestações em Moscovo e em S. Petersburgo, distribuindo informação aos transeuntes: “Uns acolhiam os panfletos, outros cuspiam e diziam vocês são terroristas”:
Refira-se que, no início de 2006, foi aprovada na Rússia a lei que restringe o funcionamento de ONGs no país, dificultando o recebimento de financiamento do exterior pelas ONGs russas. Surpreendentemente, o comissário para os Direitos Humanos do Conselho Europeu, Thomas Hammarberg, realizou no dia 2 deste mês uma conferência de imprensa em Grozni, na qual “sustentou categoricamente que a tortura e métodos ilegais de interrogatório são sistemáticos na Tchetchénia”, segundo noticiou, no dia seguinte, o jornal “Público”.
A indústria da violência
Fala-se muito de terrorismo e pouco de terrorismo de Estado, reclama Cristina, lembrando que o terrorismo de Estado não está restrito aos EUA. Quem utiliza a retórica do terrorismo nos dias de hoje e com que objectivos? Quais os interesses comuns entre os governantes de estados e os empresários ligados à indústria transnacional da violência? São Cristina e Fernando quem fazem as perguntas. Como resposta, e em jeito de conclusão, fica um excerto (pág. 72) do livro que escreveram:
“A política do medo cotidiano implementada globalmente em nosso planeta – acentuada após os atentados políticos em 11 de Setembro de 2001, nos Estados Unidos – tem dinamizado diversos segmentos económicos ligados à indústria da violência. O fluxo de movimentação financeira proveniente da ampla cadeia produtiva desenvolvida através dessa indústria – produção de armamentos, serviços de ‘defesa’ e segurança, soldados mercenários, financiamento de redes e atentados terroristas, diversificada produção cinematográfica e midiática etc – representa o mais fundamental segmento da economia capitalista na atualidade.
A guerra na Tchetchênia e suas implicações nas recentes formas de vigilância e controle da sociedade russa também tem dinamizado os segmentos econômicos da indústria de violência naquele continente. As regiões de conflito configuram-se enquanto campos de treinamento para os novos soldados que ingressam nas forças armadas russas e, paralelamente, para os rebeldes cooptados pelas forças de resistência tchetchena.
(…) Mas a política de medo cotidiano não é novidade para a população russa. (…) Se antes os agentes e espiões do livre mercado capitalista eram os inimigos, hoje as minorias étnicas parecem ser as responsáveis por toda a pobreza e falta de perspectivas na sociedade contemporânea: é necessário vigiá-las julgá-las, caracterizá-las como potenciais suspeitos. Nesse sentido, a desigualdade social é camuflada pela diferença étnica.”