A seguir entrevista com o projeto Cine Libertário, de Iquique, no Chile.
Agência de Notícias Anarquistas - Vamos começar essa entrevista com vocês contando um pouco sobre o atual cenário social e político de Iquique. É uma cidade litorânea chilena, turística, certo?
Cine Libertário - Esta cidade antes pertenceu ao Perú, mas o Chile se apropriou dela na Guerra do Salitre e a povou com gente do sul do país com mão de obra barata para as minas da região. Iquique é uma cidade turística, como você disse, mas marcada pela cara do capitalismo. Tem ao redor de 226.000 habitantes. Iquique é um acampamento mineiro que no verão se transforma em um centro turístico.
Passou por diversos auges econômicos: primeiro foi o salitre, depois de uma longa depressão a pesca industrial, que em 40 anos acabou com os recursos marinhos (hoje são esses mesmos capitais que estão usurpando os bosques e as terras do povo Mapuche), uma terceira fase de auge foi representada pela zona franca de comércio, que é uma zona de trânsito de mercadorias, aonde as pessoas trabalham por baixos salários, e a população do sul chega alucinada por que pode comprar o lixo japonês a baixo custo. E agora, ultimamente, se tem desenvolvido a exploração do minério de cobre, que tem a mesma lógica de exploração irracional dos recursos naturais, envenenam e secam os lençóis de águas freáticas (subterrâneas).
ANA - Turismo, exploração mineira, de recursos naturais, usurpação de terras indígenas... Os problemas ambientais nessa região devem ser muitos, isto está claro, por outro lado, há reação da população contra tudo isso? Existe movimento ecologista em Iquique, com conotações mais "radicais"?
Cine Libertário - Algumas comunidades Aymaras estão mais organizadas com relação à problemática da água, mas, lamentavelmente, não tem podido dar solução (ao problema) por que os mesmos organismos do Estado atuam a favor das mineradoras. E as organizações Aymaras não atuam de forma radical nem confrontacional, se não que, seguem o percurso regular que mantêm o Estado, assim não avançam muito. E do resto da população não existe maior preocupação pelo tema da água, que é o mais relevante, posto que é o que mais se vê afetado pela contaminação e o uso irracional da água, o que provoca que se estejam secando as fontes e os lençóis subterrâneos.
ANA - Agora entrando no projeto ?Cine Libertário?, como e quando ele se inicia? Falem um pouquinho da história, essas coisas...
Cine Libertário - Neste contexto nós quisemos realizar um trabalho solidário com a comunidade. E assim em maio de 2005 numa ocupação que houve na universidade começamos a difundir filmes de cunho social entre aqueles como nós que participamos dessa ação. Depois que terminou a ocupação, aqueles que haviam se agrupado em torno da propagação dos vídeos continuamos difundindo, desta vez retomando um projeto que tínhamos parado, que era o de fazer ciclos de cine libertário. Unindo essas duas idéias começamos a reunir mais material, porque nesse momento só tínhamos três vídeos, e em vhs que era o único que exibíamos, por isso pedíamos aqueles que assistiam que se solidarizassem conosco com mais material. Mas a maior parte do material que nos permitiu fazer perdurar o ciclo que fazíamos, veio desde Guadalajara, Espanha, aonde um compa de lá que nos havia contatado pelo assunto de uns livros que necessitávamos para equipar uma biblioteca popular que tivemos, mas que não funcionou pela ação inconsciente de alguns compas que não devolveram o material que haviam solicitado, que na falta de livros nos enviou uma série de filmes em vcd pelo correio, com os que pudemos desenvolver melhor o ciclo de filmes.
A idéia é compartilhar um filme, com a intenção de que se forme um debate de idéias, por isto, com a idéia de expandir o debate é que em setembro desse ano, de 2005, saímos com o ciclo para um galpão no centro da cidade, aonde fazíamos a atividade do cine-fórum aos sábados, ainda que na universidade seguíamos (com as exibições) nas quartas-feiras. Ao ocupar este galpão passamos de ser ciclo de cine a Cine Libertário diretamente. O galpão funcionou até novembro desse ano, mas como já havíamos provado que o cine funcionava na comunidade seguimos passando vídeos em bairros, coisa que fazemos até hoje, aonde fazemos o cinema não só na universidade.
ANA - Aonde funciona?
Cine Libertário - Como dissemos o Cine Libertário partiu da universidade, isto no ano que começamos em 2005, no mês de setembro começamos a trabalhar em um galpão que ficava no centro da cidade, sem deixar a difusão na universidade, também saímos a alguns bairros. Como tínhamos um projetor multimídia não tivemos dificuldades para movermo-nos com o cine pela cidade, lamentavelmente este se quebrou e até aqui chegou o cine itinerante ao menos com a freqüência em que se fazia.
Agora seguimos com o cine na universidade, e de vez em quando saímos a outros lugares como o porto em que fazemos a escola comunitária.
ANA - E quem está por trás desta iniciativa?
Cine Libertário - Aqueles e aquelas que estão agrupados em torno da atividade do cine não formamos um coletivo político nem uma organização definida nem hierarquizada, senão que organizamos a iniciativa do cine com o objetivo de recuperar espaços públicos e instâncias de reflexão e discussão. Além da iniciativa do Cine Libertário nos temos agrupado em torno a um Centro de Estudos Libertários como outra plataforma de difusão da idéia. Também levamos a cabo uma escola comunitária em um porto distante, denominada "Escola Comunitária Chanavayita", podem ver informação sobre esta atividade em www.chanavayita.tk
Nós não acreditamos no trabalho dos coletivos políticos que se formam como vanguardas iluminadas destinadas a conscientizar a população. Nós valorizamos o saber da população, o saber popular, por isto nos interessa interagir com a população não dirigi-la.
ANA - Já que comentam da "Escola Comunitária Chanavayita", como é, aonde funciona? Qual é sua dinâmica? É uma escola para crianças?
Cine Libertário - A escola comunitária nasce em 2006 depois de uma oficina de educação popular e técnicas alternativas de investigação social, que organizamos na universidade como Centro de Estudos Libertários.
A idéia consistia em criar uma instância aonde estudantes e moradores compartilhassem experiências, estratégias de sobrevivência, nos retroalimentando etc. A atividade consiste em ir todos os sábados no Porto Chanavayita que está localizado a 75 quilômetros ao sul de Iquique. São realizadas diversas oficinas artísticas, manuais, desportivas, educacionais etc. Levamos um ano, no começo íamos ao redor de 20 pessoas, mas agora por diversas razões vamos menos.
Trabalhamos geralmente com meninos e meninas de 3 a 13 anos. Brincamos, compartilhamos o tempo, fazemos desenhos, máscaras de papel, material para pescar etc. No começo nos foi um pouco difícil à aproximação pela desconfiança que sentem os habitantes das pessoas que chegam para fazer projetos, visto que já foram muitas pessoas lá, tanto do governo como das universidades, para realizar trabalhos, vídeos, e não regressam, e eles se sentem usados.
Neste ano de trabalho temos superado algumas desconfianças e preconceitos. O trabalho é lento sim, mas estamos com farta motivação.
ANA - Como é feita a seleção de filmes? Algum critério especial?
Cine Libertário - O que se busca basicamente é que o filme ou o documentário contribua a romper a naturalização da dominação capitalista, que em dois séculos da república do $hile se transformou no esquema dominante, tanto assim que aqueles que se opõem a ele desde a esquerda, não propõem formas de organização distinta, se não que se colocam dentro de seus esquemas lógicos e organizacionais.
Por isto um dos objetivos do Cine Libertário e das conversas que nele se geraram é evidenciar que as supostas saídas dos partidos e coletivos de esquerda não são tais, mas que só querem mudar a cor das correntes assegurando-se dos postos dirigentes para si, o fazem por esta maldita necessidade de poder que se encontra na contaminada retina de alguns.
ANA - E está havendo interesse por parte da comunidade em relação a este projeto?
Cine Libertário - É uma resposta difícil de se dar, por que não se pode dizer claramente se a resposta é positiva ou negativa. Para cada um dos filmes chega um grupo de pessoas heterogêneo, determinado pelo estilo da película. Ou seja, quando passamos uma película de Allende chega um público maior do que o que veio para ver o ?11 de setembro de 1973?, quando passamos ?Skinhead Actitude? chegam jovens skins e assim por diante com várias fitas. Então, não se pode dizer que se dê um público constante e homogêneo, mas que dependendo do filme as pessoas que vão e a resposta que há. Igualmente para nós isso é bom por que nos damos conta das idéias de distintos grupos. Mas o que não se realiza é que se dê um diálogo entre os distintos grupos.
Concluindo, há interesse da comunidade neste projeto no fato que se chega gente para ver os vídeos. Mas não são muitas as pessoas que participam de maneira constante, não temos integrado muita gente na organização do cine.
ANA - E como vai o "movimento" anarquista em Iquique?
Cine Libertário < Bom, apesar da existência de uma grande tradição de experiências anarquistas na região, agora não existe um movimento que tenha a correlação com os e as anarquistas de antigamente, mas podemos falar de uma heterogeneidade associada às juventudes e suas tendências musicais, aonde se geram práticas libertárias, por exemplo no hip hop, aonde a luta dos jovens é dar conteúdo ao que tem sido moldado pela lógica do capital, ao processá-lo por sua indústria cultural.
Esta heterogeneidade se nutre de várias correntes, idéias e movimentos que se inter-relacionam; conjugam-se elementos do passado libertário e da esquerda marxista, o que gera contradições e quebras, uma nebulosa, mais que uma organização real.
ANA - Cite três filmes que achas que todo anarquista, ou não, deveria ver pelo menos uma vez na vida? (risos)
Cine Libertário - "La Patagonia Rebelde" (ainda que a Rosa não goste dele por que tem muitos assassinatos) que relata a matança dos trabalhadores de lã na província de Rio Gallego na Argentina, baseado nos escritos de Osvaldo Bayer. "Vivir la Utopía" que é um documentário que mostra os relatos dos protagonistas da Revolução Espanhola. E ?Os Últimos Zapatistas? que também é um documentário aonde se entrevista aos soldados e soldadas de Zapata. Acreditamos que são importantes não pelo fato de que sejam de caráter anarquista, mas por que são sobre as experiências revolucionárias mais importantes.
ANA - Já exibiram algum filme brasileiro no "Cine Libertário"? (risos)
Cine Libertário - A película e o documentário "Cidade de Deus", vocês nos poderiam enviar algum filme, por que esse é o único filme que temos, e nos parece muito importante ter material sobre a história social do Brasil, por que aqui só chega puro lixo turístico.
ANA - Como vês a produção cinematográfica chilena?
Cine Libertário - Mal, muito comercial. Não há espaço para o cinema social, que conte histórias reais. Mas existe o trabalho que fazem os/as compas de maneira independente, como os de "Bienvenida Democracia" ou "Uxüf Xipai".
ANA - Que filme produzido recentemente no Chile recomendarias a um "estrangeiro" ? Por quê?
Cine Libertário - Filmes não, por que são todos comerciais e vazios de conteúdo social, só buscam vender uma imagem do Chile pitoresco, de gente infiel e boa para gozar. Chile é um país pacato, portanto, não te podemos recomendar nenhum filme recente.
O que, sim, te podemos recomendar são documentários, ainda que não nos pomos de acordo em um só documentário, pois há vários que mostram o Chile real: "Bienvenida Democracia", que narra a situação dos prisioneiros políticos na democracia, "Uxüf Xipai, el Despojo", que fala sobre a realidade histórica do povo nação Mapuche e sua relação com o Estado do Chile e agora por ultimo com os capitais transnacionais. Mostrando o trabalho da Coordenadoria Arauco-malleco, a recuperação de terras e a criminalização das comunidades Mapuche. E "Chile? en la Sombra del Jaguar" que não é tão atual e que foi feito por pessoas da França, mas que relata acertadamente a realidade social do Chile.
ANA - O Hip Hop é uma cultura muito presente no Chile, não? No movimento libertário chileno também?
Cine Libertário - Sim, há farta cultura hip hop, e organizado como o caso da Rede Hip Hop Ativista, que praticam a autogestão e a educação popular nas comunidades urbanas. Por exemplo, os ?Pobla-Hop? em Iquique, que realizam cursos e encontros nacionais como o de b-boys. E no movimento libertário também, se realiza farta atividade cultural em comunidades, como okupas ou centros culturais. Em Viña del Mar está "El Semillero" que funciona também como escola popular, em Concepción existe o "Centro de Estudos Claudia López" que funciona como centro cultural, e na Serena está a casa ocupa "El Chirimoyo", entre outros lugares.
ANA - E os próximos projetos?
Cine Libertário - Continuar com o que já temos, dar continuidade ao Centro de Estudos Libertários, e na medida do possível publicando pesquisas. Terminar nossos cursos e fazer com que isto continue e que não termine quando nos formarmos.
ANA - Alguma coisa mais? Obrigado!
Cine Libertário - Bom, nós gostaríamos de ir para o Brasil e fazer uma entrevista a vocês. (risos)
Muito obrigado pela entrevista, esperamos que mantenhamos laços e não percamos o contato. Cumprimentos fraternais desde Iquique.
Cine Libertário: www.cinelibertario.blogspot.com
E-mail:
cinelibertario@gmail.com
Tradução: Juvei
agência de notícias anarquistas-ana
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Danielle Pereira D. de Oliveira - 9 anos