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[Brasil/Casa das pombas] Mas será o Anarquismo?
Nigganark , 14.10.2007, (Id: 12634)
Análise da ação estatal e cobertura midiática na Okupação Casa das Pombas
Afirmam as teorias contra-hegemônicas clássicas que, na manutenção da ordem dominante - organizada em função do capital - estado e mídia corporativa cumprem função complementar: enquanto o primeiro reprime brutal e burocraticamente a ação divergente, o segundo espalha aos quatro cantos versões estranhas aos fatos, estranhamente coincidentes com os interesses dos donos do poder.

Esta leitura da realidade, bem antiga, tem tradição histórica vinculada aos movimentos e ideologias de esquerda, advindas da tradição operária (anarquismo, comunismo, socialismo, autonomismo) e se espalharam por todo o mundo. Atualmente afirma-se que na nossa sociedade complexa/moderna esses pensamentos estão ultrapassados e não servem mais à compreensão da realidade - que necessitaria de outros modelos mais eficazes no seu entendimento. Todavia, analisando o recente processo de desalojo da ocupação "Casa das pombas", ocorrido em Brasília, no centro da capital federal, este instrumental simples de análise parece ter algum valor. Vamos aos fatos:

Okupa, espaço encantado

Há cerca de um mês um conjunto de ativistas políticos, artistas, comunicadoras/es envolvidos em diversas lutas - pela democratização/coletivização da comunicação, por um transporte efetivamente público, por uma sociedade não-opressora, sem especismo, racismo, homofobia, machismo, orientada a partir da liberdade coletiva - ocuparam um prédio abandonado há cerca de 12 anos, onde residia o falido BANERJ, que foi comprado pelo financeirista e especulador ITAÚ. Buscava-se dar função social àquele espaço. Um lema recorrente ao movimento é "uma casa ocupada é uma casa encantada"(retomando a música da banda AnarcoPunk espanhola Sin Dios).

A idéia era - e foi durante todo o tempo - transformar aquele lugar em um espaço socio-cultural e político, possibilitando encontros entre pessoas, grupos, atividades criativas etc. Estavam sendo organizados no local um ateliê artistico de produção coletiva, um centro de mídia (com telecentros, espaços à produção de mídias) e espaços para oficinas, palestras e demais atividades. Todavia o abandono de 12 anos do local deixou-o em condições precárias (sem água/luz) e insalubres (tomadas por pombos, ratos e sujeiras). Todo o período inicial da ocupação foi tomado por atividades como mutirões de limpeza, pagamento das contas atrasadas de água (que somaram R$ 844,00) e busca de soluções pra volta da luz no local - que até o momento estava com todos os seus resistores sem funcionar. Diversos grupos de trabalho foram organizados para dar conta dos serviços, com turnos revezados etc. Algumas pessoas residiam no local por algum tempo, pra manter o processo constantemente caminhando. Ativistas de outros países, em passagem pelo DF, ficaram também na okupa contribuindo com o processo.

Repressão, prisões políticas e seus portavozes

A partir do momento em que o Banco Itaú soube da ocupação, uma enorme força policial foi mobilizada para o local. Duas investidas arbitrárias das polícias civil e militar conjuntamente ocorreram seguidamente na casa. Uma, na noite do dia 8 de outubro, deteve 5 ativistas por cerca de 6 horas sem uma clara acusação. A segunda, na manhã do dia 9 de outubro, deteve as ocupantes da casa novamente sem acusação clara. Após 8 horas detidas, e fracassadas as tentativas de acusações de tráfico de drogas, prostituição, roubo de água e luz (nenhuma delas chegou sequer perto de se comprovar), surge a acusação esdrúxula de "formação de quadrilha de ocupação de prédios abandonados", pois encontrou-se um panfleto intitulado "Como ocupar casas abandonadas".

O processo de detenção destas ativistas, que configura-se cada vez mais como político, começa a ter diversos comportamentos estranhos: uma prisão sem acusação, seguida de uma acusação esdrúxula e da negação do habeas corpus pela justiça. Uma rápida transferência das pessoas detidas para os presídios (Colméia, feminino e Departamento Policial Especial, masculino) da cidade, deixando perplexos os/as próprios/as carcereiros/as e funcionárias/os. Começam a falar algumas pessoas que isso se trata de uma prisão política, brancamente política.

A mídia corporativa, todavia, não falou em prisões políticas, quanto menos em apuração dos fatos. Mas falou em trafico de drogas, roubo de água e luz, quadrilha, fez patrulha ideológica. Pegando como exemplo três matérias, vinculadas em 3 jornais diferentes e divergentes, podemos averiguar este comportamento:

- A notícia televisiva veiculada na segunda edição do DFTV, jornal local, no dia 9 de outubro, chamada "Boicote ao aluguel", afirmava que "A polícia suspeita que o abrigo servia como ponto de encontro de usuários de droga." e ainda que "A polícia também suspeita que o grupo furtava água e energia elétrica." Estranhamente a matéria foi ao ar a partir das 19h, quando a polícia já havia retirado estas duas acusações e não suspeitava nem de uma nem de outra coisa mais. A notícia filmava uma colher perto de um fogão (como ocorre em praticamente todas as cozinhas do país) sugerindo que houvesse merla no local. Destaque para a afirmação, em tom acusatório, de que "A polícia também flagrou cartazes sobre anarquismo, boicote ao aluguel". É a afirmação mentirosa, junto à patrulha ideológica de direita, servindo ao espetáculo televisivo.

- Já a nota veiculada pelo Correio Brasiliense (Jornal impresso de maior circulação na cidade e pertencente ao grupo do governo), afirmava, no dia 10 de outubro, que "a suspeita dos policiais é que o local servisse como ponto de distribuição de drogas, mas os investigadores encontraram apenas uma pequena quantidade de maconha e uma lata de merla em poder dos acusados...", quando não consta em nenhum dos laudos do processo que qualquer quantidade de maconha ou merla tenha sido encontrada no local na ação policial, pois de fato não foi. A matéria do Correio Brasiliense errou absurdamente em uma notícia que, coincidentemente, serve à mesma versão deslegitimadora da ocupação. Pressionada por leitores/as que acompanhavam o movimento, a equipe do correio chegou até a fazer entrevista com o movimento, mas nada saiu sobre a ocupação em sua edição do dia 11 de outubro. O espetáculo não ousou mais afirmar tratar-se de tráfico, mas manteve a acusação de ponto de drogas sobre a okupa.

- Ainda no dia 10, quando não colava mais a argumentação esdrúxula do tráfico de drogas no local, a versão noturna do Jornal da Record - DF fez uma bem editada matéria sobre o assunto. Mas nesta ocasião a chamada era: "Desarticulada uma quadrilha especializada em invasão de prédios abandonados." Desta vez, mesmo mantendo o discurso do local como encontro de usuários/as de drogas, a fala da imprensa debruçou-se sobre a acusação de quadrilha, quando na realidade trata-se de um movimento social. Novo destaque para as novamente acusatórias afirmações de que "O grupo prega o anarquismo". É o espetáculo criminalizando o pensamento divergente, mesmo que pra isso tenha que abandonar o direito de livre associação e livre expressão das pessoas.

Estas três matérias, veiculadas em espaços de enorme abrangência, cumpriram, cada uma a seu modo, o mesmo papel: o de despolitização dos movimentos, criminalização da sua ação política, livre expressão/associação. Estes direitos básicos a qualquer sociedade democrática foram tratados pela mídia corporativa como crimes, e pra isso a falsa acusação do tráfico de drogas no local serviu bem como confirmadora. No mais, as questões/discussões de que estes movimentos efetivamente tratavam e levantam com esta ação - da luta contra a especulação imobiliária que avança sem limites na capital do país, da funçao social do espaço urbano, da negação da propriedade privada, da apropriação coletiva dos bens sociais, da liberdade coletiva como bem essencial - foram ignoradas pelos grandes meios. A eles valeram mais as inverdades sensacionalistas, criminalizantes e deturpadoras. Vale destacar a seguinte questão: transformou-se agora em crime ser favorável a outros sistemas de organização social e política? Ser anarquista, socialista, comunista, autonomista ou libertária agora é sinônimo de crime? O espetáculo deu as caras...

Assim, voltando àquelas teorias clássicas nesse esquema onde um agente da opressão bate no corpo enquanto o outro sopra inverdades no ambiente, a dupla dinâmica da segregação social agiu totalmente de acordo com estas teorias críticas, supostamente antiquadas. O anarquismo, grande vilão oculto desta história, apareceu como ponto proibido, censurado. Mas não nos enganemos: censuradas são, conjuntamente, todas as correntes opositoras a esta ordem vigente, no mesmo movimento de criminalização da luta do Movimento Sem Terra pela reforma agrária, na mesma oposição à luta pela comunicação sem monopólio, do Movimento dos Trabalhadores Desempregados/as por um trabalho não alienado, na grande composição de uma sociedade outra, talvez socialista, comunista, anarquista, autonomista ou qualquer outro destes nomes que damos pra sistemas justos.

Caso a mídia e as autoridades tenham olhado atentamente nas paredes da okupação, pode ter visto também, junto às que citou, a frase "Livres ou mortas, jamais escravas!" inspirada nas piqueteiras argentinas, zapatistas do méxico e diversos outros movimentos autônomos pelo mundo. Talvez aí eles tenham percebido que nossa luta não se trata só de pequenas conquistas, mas de mudanças concretas, estruturais. E por isso tenham buscado nos criminalizar, colocando-nos nas valas comuns do espetáculo. O show começa agora...

El Nigganarco, 11 de outubro de 2007

Email::  nigganark@riseup.net