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"É claro que imagino umha mulher a governar Cuba": Entrevista com Mariela Castro, directora do Centro de Educaçom Sexual de Cuba
www.primeiralinha.org , 06.11.2007, (Id: 12919)
Apresentamos a traduçom galega da entrevista realizada polo jornal argentino Clarín à directora do Centro Nacional de Educaçom Sexual de Cuba. Mariela Castro Espín, filha de duas grandes personalidades da Revoluçom, analisa abertamente diferentes questons atinentes à política sexual na ilha. Traduçom de Primeira Linha em Rede.


 http://www.primeiralinha.org

5 de Novembro de 2007

Apresentamos a traduçom galega da entrevista realizada polo jornal argentino Clarín à directora do Centro Nacional de Educaçom Sexual de Cuba. Mariela Castro Espín, filha de duas grandes personalidades da Revoluçom, analisa abertamente diferentes questons atinentes à política sexual na ilha. Umha entrevista que reconhece as conquistas e carências do processo revolucionário em curso a partir do compromisso vital com a independência e o socialismo cubanos.

Entrevista exclusiva com Mariela Castro Espín, directora do Centro de Educaçom Sexual de Cuba.

Por: Hinde Pomeraniec (Jornal Clarín, Argentina)

Chegou a Buenos Aires para falar de aquilo que sabe. Mariela Castro Espín é a filha do actual homem forte de Cuba, Raul Castro, e de Vilma Espín, ex guerrilheira e por anos a cabeça da Federaçom de Mulheres Cubanas. Mariela (1963, casada, três filhos) é a directora do Centro Nacional de Educaçom Sexual de Cuba. Para surpresa de muitos, é também a promotora do projecto de lei que autoriza operaçons de mudança de sexo e a modificaçom de documentos de identidade para transexuais no seu país. Na sede do Partido Comunista da rua Entre Rios, ao abrigo de umha imagem do Che, Castro Espín recebeu o jornal Clarín.

Como é que surge o seu interesse por estes temas?

- Envolvim-me em temas de sexualidade quando estava a trabalhar na Universidade Pedagógica. Fum a professora mais nova naquela altura e quando fôrom criados grupos de investigaçom, todos tomavam os temas mais ribombantes e pedírom-me para atender eu esse tema. Comecei com educaçom sexual infantil, a seguir adolescência. Sempre tinha tido curiosidade por como eram abordados em Cuba os temas de homossexualidade e nom me sentia satisfeita; sentia-me muito incómoda com a homofobia, com certa atitude inclusive institucional que havia perante as pessoas homossexuais. No Partido Comunista e na Juventude Comunista nom os consideravam, nom eram aceites como militantes e eu achava isso realmente horroroso. Nom concordava e sempre briguei por isso, nos espaços que me correspondiam, primeiro como estudante, depois como professora.

Tinha amigos gays?

- Em particular ou estreitamente, nom. Mas sempre escuitava as pessoas que me contavam as suas histórias, ou as cousas que se tinham passado nos anos 60 ou 70. Sempre perguntava às pessoas, porque eu queria ter as cousas claras; pessoas que inclusive vivêrom essa experiência e essas pessoas nom o contavam com rancor, era como que se compreendessem porque aquilo tinha acontecido.

Está a falar dos campos de trabalho aonde eles eram enviados?

- Nom eram campos, eram unidades militares de apoio à produçom que se tinham criado como umha modalidade de serviço militar para facilitar que os filhos dos operários e camponeses saíssem com umha qualificaçom que lhes permitisse um acesso a um trabalho mais bem remunerado. Essa era a ideia que se tinham proposto no novo Ministério das Forças Armadas Revolucionárias. Era um momento de muito alvoroço, estava a ser criada umha naçom revolucionária e a meio disso todos os ataques de terrorismo de estado de que era alvo o povo cubano: era muito difícil. E esta foi umha das iniciativas e em algumha destas unidades houvo pessoas que humilhárom os homossexuais, que considerárom que tinham que ser levados a trabalhar para os fazerem “homens”. Havia que os “transformar”, essa era a ideia da época, estava no mundo inteiro. Mesmo os psiquiatras faziam terapias para os tornarem heterossexuais.

E também havia atitudes discriminatórias com as lésbicas?

- A mulher é mais cuidadosa e mais discreta, por isso essas humilhaçons eram para os homens homossexuais. Mas nom houvo desaparecidos, nem torturados; nom houvo nem há em Cuba crimes de ódio por sexualidade como por aí contam, tergiversando a realidade cubana. Mas sim, aquilo foi umha violaçom dos direitos destas pessoas.

Dizia antes que começou logo a se interessar pola questom da diversidade sexual…

- De algumha maneira, embora nom trabalhasse directamente no tema, quando dava os meus cursos de educaçom sexual, tocava os temas da homofobia. Nos espaços de rádio e TV, inclusive em algumha entrevista no ‘Granma’, em 1990. Já a minha mae (Vilma Espín, esposa de Raul Castro, recentemente falecida), nos anos 70 e 80 trabalhava isso na Federaçom de Mulheres Cubanas, que sempre se enfrentou a estas atitudes homofóbicas mesmo dentro do Partido, mas conseguírom pouco nesse sentido. Pouco para aquilo que tencionavam, já que movêrom o caminho para nós podermos fazer o que fazemos, graças a esse trabalho prévio todo.

Qual foi a sua primeira participaçom concreta na política da diversidade sexual?

- Foi em 2004, a partir de que um grupo de mais de 40 travéstis e transexuais da cidade de Havana se aproximárom do CE NESEX para me colocarem as dificuldades que tinham com a Polícia no concelho da zona de La Rampa, a mais central, onde se reuniam e ainda se reúnem. A Polícia andava a detê-los arbitrariamente e depois saíam por falta de causa, todo porque a populaçom andava a protestar.

Exerciam a prostituiçom?

- Alguns sim, outros nem por isso. A Polícia fazia isso polos protestos, mas aí havia outro tipo de pessoal, nom só travéstis ou transexuais; pessoas que andavam a roubar, a incomodar os turistas. Houvo que travar aquilo, mas a maneira como foi feito… identificárom os travéstis e transexuais como a causa dos males de toda essa área. Nós consideramos que era um tratamento inadequado, pedimos reunions com a Polícia da zona e acordamos deixar as acçons isoladas e elaborar umha estratégia nacional de atendimento a pessoas transexuais e travéstis por forma a encarreirar questons de saúde, sociais, educativas, laborais. Daí saírom os argumentos para umha Lei de identidade de género, de modificaçom do Código da Família aprovado em 1975.

A ideia é incluir a hipótese do casamento gay?

- Já em 75 se pretendia qualquer cousa parecida com isso. Particularmente a minha mae falava de casamento como ‘uniom entre duas pessoas’. Porém, a cousa nom deu certo, porque ao ser levado para votaçom na procura de consenso popular, a populaçom nom aceitou essas cousas.

Porque acha que nom dérom certo? Pola tradiçom católica, polo machismo?

- Polo machismo e a heterossexualidade hegemónica que há nas nossas culturas e porque nessa altura nom se discutiam estas cousas publicamente como agora se fai, e o processo de elaboraçom era mais lento. O Código da Família avançou ao ponto de análise que chegava a populaçom cubana nesse momento. Nos anos 70, 80 e 90 trabalhou-se intensamente, com a Federaçom de Mulheres e outras instituiçons que faziam parte do programa de educaçom sexual, e entom figérom-se novas modificaçons. Agora estamos a introduzir um outro artículo relacionado com o direito à livre orientaçom sexual e a identidade de género que inclui a “uniom legalizada” entre pessoas do mesmo sexo. Falar em casamento seria mudar a Constituiçom. Incluirá os mesmos direitos patrimoniais e pessoais que o casamento tem, incluída a adopçom. É neste ponto que há maior resistência da populaçom, no tema da adopçom, mas também acontece a mesma cousa na Europa.

Mencionou os anos 80. O que significou a chegada da SIDA a Cuba?

- Quem realmente tivo a visom mais ampla e mais clara quanto à SIDA foi Fidel, que no ano 85, 86 –ele estava a par do que se passava no mundo– perguntou às pessoas do Instituto de Medicina Tropical: “Vocês pensárom no que vam fazer com a SIDA? Porque eu penso que vai ser a epidemia do século. Pensárom o que vam fazer para evitarem que chegue a Cuba ou que se desenvolva?” - “Por acaso nom, mas se o senhor nos di…”, respondêrom e fôrom a França e contactárom o último que havia, com Luc Montagnier. Começárom a ser feitas pesquisas sobretodo aos companheiros que vinham de missons em África e os primeiros casos vinhérom daí, precisamente.

Há coquetel de medicamentos em Cuba?

- Há, sim. A partir dessa pregunta que Fidel fijo, foi estabelecida a Estratégia Cubana de Prevençom e Luita contra a SIDA: Fidel costuma pôr esses nomes às cousas (risos). E entom foi criada toda umha equipa de governo sob controlo directo do ministro da Saúde e do Comandante. Isso tem permitido que as decisons sejam tomadas mui rapidamente, nomeadamente as relacionadas com os orçamentos. O atendimento às pessoas que vivem com HIV é caríssima, e toda é paga polo Estado cubano. Fidel propujo que a ONU pague cousas que tenhem a ver com a prevençom, mas o atendimento é responsabilidade do Estado.

Como é a proporçom da SIDA em homens e mulheres?

- 80% dos casos som homens e, deles, 85% som homens que tenhem sexo com outros homens, muitos relacionados com a prostituiçom.

E o reparto de preservativos?

- Gratuito, subsidiado. E nas farmácias vende-se a um preço que praticamente nem paga metade do que custa ao Estado, que tem que comprar na Europa ou no Japom, porque os EUA, por causa do bloqueio, nom pode vender-nos camisinhas nem nada.

Lim num artigo que a senhora participou no roteiro de umha telenovela…

- Foi umha iniciativa da TV cubana. Resolvêrom fazer umha telenovela, que se chamou “A face oculta da Lua”, onde havia várias histórias, entre elas a de um homem casado que descobre que gosta de um homem homossexual. Foi a primeira vez que saiu umha cousa dessas na TV cubana, e provocou um grande alvoroço, a pesar de ser moderada. Também algo estereotipada, mas o importante foi que abriu um debate social. Os espaços televisivos dramatizados som os que chegam a todo o mundo, aos marginais, aos que lem o jornal, aos inteligentes e aos brutos.

Quem aposta mais nas mudanças na sociedade cubana, homens ou mulheres?

- Em Cuba, a mulher tem mudado muito. Já no seu programa revolucionário, na obra A história absolverá-me, Fidel falava da terrível situaçom de exploraçom da mulher cubana. Umha percentagem altíssima das mulheres prostituíam-se por nom terem alternativa. Iam à capital à procura de emprego doméstico e acabavam de prostitutas. Mais tarde, umha das primeiras tarefas que a Revoluçom realiza é ir atender estas mulheres e dar-lhes tratamento médico, alfabetizaçom, cursos para começar a trabalhar com algumha qualificaçom. A vida destas mulheres mudou e ficou estabelecido que a prostituta é umha vítima; portanto, nom é umha figura delitiva, como de facto é a do proxeneta. Porque há umha lei que pune a exploraçom do homem polo homem.

Com a chegada do turismo à ilha, voltou a prostituiçom…

Isso tinha-se superado em Cuba, por isso quando começa o turismo doeu tanto ao povo de Cuba que as mulheres começassem a se prostituir, porque se tinham dignificado muito com a Revoluçom. Entom, via-se como qualquer cousa de indigno que mulheres com possiblidades se prostituíssem. Porque trabalho sempre há em Cuba, porque há que há umha lei que obrita a haver trabalho mesmo que nom haja recursos, há que inventar o emprego. Entom, doía muito que tal acontecesse, e ainda dói. As mudanças mais importantes no nível da subjectividade fôrom levadas polas mulheres cubanas e as mudanças no homem tenhem sido a partir das mudanças na mulher. Nom tenhem outro remédio; a mulher saiu a trabalhar e a casa mudou, entom o homem tivo que assumir responsabilidades domésticas.

empre digo que, onde houver humanidade, há diversidade, e no mundo militar também há gays, embora se acautelem para ninguém saber, porque é um ambiente em que nom som aceites. Ainda se considera que nom há condiçons para propor mudanças. Bem, o meu pai, ministro das Forças Armadas Revolucionárias, di-me: “Olha, eu penso que na medida que a populaçom mudar, o Exército irá mudar, porque a populaçom está dentro do Exército também. Trabalhai, sensibilizai, fazei, mudai a sociedade cubana e assim iredes mudar todo o mais, também as instituiçons…”

Como foi crescer sendo mulher numha família de homens tam importantes?

- Luitar muitíssimo, brigar o tempo todo, exigir o tempo todo, e ainda todas brigam, porque se nom, imagina, comem-te! As mulheres agora imponhem-se, em todas as sociedades patriarcais é assim e nom deixar que te pisem.

Imagina um futor possível com umha mulher no governo?

- Com certeza. Há muitas líderes mulheres, ministras, vice-ministras, directoras de instituiçons.

O povo cubano está pronto para ser governado por umha mulher?

- Está, sim.

Há 10 anos, teria sido possível?

- Há 10 anos nom o teria pensado. Mas, nos últimos tempos, tem-se aplicado umha política de promoçom da mulher. Nestes momentos investiga-se porque a populaçom nom se reproduz. Como em Itália, a mulher cubana tem um, dous filhos no máximo. Nom tem nengum desejo de ficar escrava da casa e dos filhos. Cresceu muito no plano cultural e de independência, mas se as condiçons económicas nom melhorarem… entom ninguém se arrisca a ter muitos filhos. Na verdade, a mulher já nom volta para a casa, cada vez mais, é possível imaginá-la em lugares de poder e decisom. Nesta última eleiçom ganhárom muitas mulheres, algumhas muito novas.

Está a viajar muito, a trocar experiências com colegas de outros países?

- Bastante, mas se nom for eu, vam as minhas companheiras.
Viaja aos EUA?

- Nom nos dam visto de entrada. Estive numha ocasiom e depois mais duas vezes fum convidada mas nom me dérom visto. Pedim-no e nom respondêrom, e eu nom estou aí para andar a rogar aos norte-americanos. Quando querem, os profissionais norte-americanos vam por um terceiro país e aí mantemos excelentes relaçons e um excelente contacto por e-mail.

Como é o projecto de lei para a diversidade sexual?

- Apresentamos o projecto ao PC, que nos deu os contactos com os organismos do Estado. Nom sei quando irá ser aprovado, estám a ser feitas definiçons e cousas muito importantes agora em Cuba, e imagino que fôrom priorizadas algumhas propostas. Dixérom-nos: isto vai ser aprovado. O Partido propujo-nos que trabalhemos junto da populaçom e com os meios, para chegarmos com a lei quando estes temas forem conhecidos polas pessoas.

Quantas pessoas estám à espera para serem operadas de mudança de sexo?

- Há 27 transexuais à espera de operaçom, está a ser treinada a equipa médica. Logo que esteja pronto, já há umha resoluçom do Ministério da Saúde Pública que implementa o processo de assistência, de atendimento integral de saúde, inclusive a criaçom de umha unidade especial para atender aos transgénero. Isso já foi aprovado, aginha que a equipa esteja pronta, começarám a operar e atender.

Há algum país em que lhe pareça ideal o tratamento da diversidade sexual?

- O ideal é sempre maravilhoso, o difícil é a prática. Em Cuba, nestes momentos, estamos em debate sobre ocmo é o socialismo que queremos; como nos vai dar mais satisfaçom e ocmo criar a estrutura económica que o sustente, sempre evitando a exploraçom do homem polo homem, a essência do capitalismo. Nisso é que estamos.

 http://www.primeiralinha.org


Manuel Fraga Iribarne, 06.11.2007 (Id: 9093)

ostia! pero se cuba parece propiedade da familia castro





Almanzor, 06.11.2007 (Id: 9094)

E os homosexuais nos campos de concentracion? disto non fala nada, ahhhhh, que son desviacions burguesas....si xa o decia estalin...amen!





galego, 06.11.2007 (Id: 9095)

Almanzor, se soubesses ler evitarias juntar letras para escrever tontarias... :-)






viiu, 07.11.2007 (Id: 9096)

Ler? Uf... que preguiça!


Interessante entrevista!





almanzor, 08.11.2007 (Id: 9129)


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